quarta-feira, 3 de Março de 2010

Um pai em nascimento, José Eduardo Agualusa

Ao passar ontem os olhos pela montra de uma livraria, aquele livro chamou-me. Entrei e procurei-o, ansiosa de o ter na mão.

Agora, já de volta a casa e com a primeira leitura integral quase concluída, aconselho a que, sendo ou não sendo pais, o leiam.

Para muitos não será certamente uma primeira leitura, pois o livro é uma compilação revista e actualizada das crónicas que Agualusa escreveu, na sua maior parte, na Revista Pais e Filhos, há uns anos atrás, mas, quer seja uma re-leitura quer seja uma viagem inicial, será certamente um percurso enternecedor, que nos faz soltar umas boas gargalhadas, daquelas que nos saem quando aprendemos a rir de nós mesmos... Uma escrita que nos envolve em afectos, perguntas, perplexidades, deslumbramentos e oportunidades de ler sobre aquele "essencial que é invisível para os olhos"...

Comenta Laurinda Alves, que prefacia o livro: Agualusa escreve cartas aos filhos por nascer como quem inaugura um mundo novinho em folha (...); (...) sei que continua igualzinho ao que sempre foi. A única coisa que mudou (...) é que já não escreve crónicas sobre os primeiros tempos de vida dos seus filhos, mas continua a viver através deles, com a certeza de que "a infância é o que conhecemos mais próximo da eternidade".

Deixo-vos alguns dos excertos que me encantaram:

(...) não consigo compreender o que o meu filho diz, embora, pela convicção com que tagarela, seja possível supor que utiliza efectivamente uma qualquer linguagem primordial, aparentada com o idioma das aves, dos regatos e dos anjos.

O meu calendário está a chegar ao fim. Quando me sentar outra vez para escrever esta crónica, já serei pai.
Não tarda muito e acontece-me um neto.

Um filho leva-nos pela mão, como um pequeno cicerone, e dá-nos a ver o futuro: ali as maravilhas, acolá os monstros, e tanto os monstros quanto as maravilhas fazem parte do mesmo jogo - desafios a vencer com alegria.

Outra questão importante prende-se com a insistência da generalidade das mulheres nos excelentes benefícios de envolver os homens nas tarefas (...): dar o biberão, mudar as fraldas (...) porém insistem em controlar tudo. O jogo é delas e deixam-nos brincar um pouco, mas estão sempre de olho em nós. Deus, sugerem, explicou-lhes qual a temperatura correcta da hora do banho, a posição ideal para o bebé mamar (...). Assim sendo, podemos e devemos tratar dos bebés, mas cumprindo rigorosamente as instruções (...). Se nos atrevemos a protestar reduzem-nos a nada, invocando precisamente o mesmo argumento com que, durante séculos, as escravizámos: as mulheres é que dão à luz, produzem leite, foram preparadas pela natureza para cuidar dos filhos. Nós, os pais, somos, seremos sempre, mães amadoras.

Ver-te dormir - e como tu dormes, minha filha, com que talento! - repousa-me e regenera-me mais do que o meu próprio sono. Anseio por ouvir a tua primeira gargalhada. Sei que isso me fará ainda melhor. Não conheço som mais iluminado do que a gargalhada de um bebé.
Bem-vinda, pois, minha filha. Choveu há pouco. O céu está limpo.
O mundo pode agora começar.

Boa leitura!

3 comentários:

Rita Banza disse...

Venho por este meio divulgar o Encontro que se irá realizar em Lisboa, no dia 17 de Abril, subordinado ao tema Educação e Parentalidade.

Poderá consultar todos os pormenores em
http://www.educacaoeparentalidade.pt.to/

Desde já agradecemos que divulgue, se possível, junto do seus contactos, no site ou blog.

Obrigada

Rita Banza

rosarinho disse...

Este seu post, cumpriu bem a sua missão, vou comprar o livro assim que puder. Obrigada pela partilha.

voo do tapete disse...

Hoje emprestei o livro a um grande amigo: acho que ele vai ficar "grávido"...

Ana :)