Mostrar mensagens com a etiqueta fotografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fotografia. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 7 de março de 2011

CONFORTO

Foto: Henrique Santos


Chegavas…
A tua mão a acenar no ar
dizia-me “conforto”!
– Chegou o meu porto – pensei,
num suspiro abrigado. – Porto de abrigo, é onde fico, contigo.
Preparei-me. Antegozei a conversa amiga, cheia, liberta.
Estou pronta, ou melhor, sedenta:
Sento-me
à sombra da tua voz.
Olho
através do teu olhar.
Penso e digo e oiço
as coisas que vêm colocar-se para serem ditas…
É bom estar aqui.

Depois…
Em cada dia
invento como apagar a tua ausência: pinto no ar
um pulo de pássaro lançado em voo, lá do alto, asas abertas
e nesse voo risco o vazio com movimento.
Em cada dia a sós comigo
agradeço
a construção em mim da tua presença: adereço de amizade
sem preço…
de olhos abertos
recolho o olhar e sinto-te pousar
em quietude
num canto de mim.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

FORMA DE OLHAR



Navego no teu olhar.
Abrigo antigo, amigo.
Faço-me novelo.

Enrosco-me na frescura verde de prados…
Encanta-me o brilho.
Embala-me a expressão.

Envolvem-me matizes de cor,
verdes, castanhos, dourados...

Dissolvo-me, encontro-me.
São cheiros de terra lavrada,
os teus olhos, são!

Terra em torrão
acolhedora,
geradora: onde pode nascer grão.
No teu olhar passeio-me, amparada,
pressinto-lhe o ondular de campos de trigo...

Olho e vejo: lonjuras, imensidão sem par…
Navego no teu olhar…

Foto: Henrique Santos

PAPOILA




















Se uma papoila dançasse para mim,
seria tango.
Movimento para além dos nomes,
passos
com o poder de quedas de água,
abraço
mais envolvente que pele,
pés
em desenho quente pelo chão fora.

E o corpo dança,
leve e sedutor,
como o ar e o fogo
rodando e atravessando a música,
papoilas vermelhas de emoção
e o tango,
e os passos,
o abraço
em dança leve de chama…

A labareda de dançar
porque não de pode parar.

Como papoilas
no campo
a voltear.

Foto: Henrique Santos

quarta-feira, 21 de julho de 2010

ENTARDECER


Tecer o fim da tarde.
Entontecer de luz.
Beber a dissolução do sol
pelo olhar…
Afagar cabelos de erva.
Sentir marulhar a tarde
na liquidez em brasa...
Mansamente mar.

Foto: Henrique Santos

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Solidão














       






Está em mim
um tempo de silêncio
em peso de montanha.
Solidão instalada.

Paira esta atmosfera pesada,
tórrida de opressão
como a cor crua do sol
na planura, à hora do calor.
Invade tudo,
toda a altura,
a largura
e a espessura dos dias.
Tudo o que na paisagem se alcança.

E eu também
ferozmente tisnada,
crestada,
em completa secura.
Experiência dura.

A solidão agarra-me,
carraça sugadora da cor dos dias.
Vivo um tempo
em que as palavras
não se abrem,
condensadas,
cada uma feita espessa bola de dor,
e espanto,
e interrogação sem par.
Foto: Henrique Santos

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Texturas... ou ternuras?




















Se um dia eu
precisasse de dizer
que o encantamento se personifica,
se um dia eu
precisasse de sussurrar
que a ternura se enche de infinitudes de emoção,
se um dia eu
precisasse de explicar a amizade,
se um dia eu
precisasse de dizer que o afecto
é um ser com vida própria,
se um dia eu
precisasse de lapidar as faces infinitas do amor,
se um dia eu
precisasse de rasgar o tecido
de que sou feita
(sentir-lhe o toque num afago de mão
e levá-lo até à porta da retrosaria)
só para ver bem as cores que tem à luz do sol,
pedia-te:
- Vem hoje às compras comigo, por favor!
Foto: Henrique Santos

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Campos em flor




















Amigo de campos em flor
que rima com cor e dor e amor.
Amigo de verdes sem fim
de campos floridos de sol
salpicados de sonho
por dentro de mim.
És vento a tocar cada flor
em jeito de aragem,
em pleno calor,
que rima com cor e dor e amor.

Inundados de luz
embalados de sombra
conversamos, mudos
e dizemos tudo
sem abrir a boca.
O amigo e eu.
Um passeio.
Um sorriso.
Um voo de ave
que riscou o céu.
Repouso, tranquila penumbra.
Foto Henrique Santos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Presenças




















Sempre gostei de árvores, de as olhar.

De longe, na paisagem, de perto, a cada uma a minha atenção.
São mágicas, são rochas vivas de uma energia permanente, que se manifesta num tempo para além do tempo: num tempo mais longo que o meu.

Árvores.
Gosto de ficar por perto.
Cheirar o ar que as circunda.
Ouvir mil rumorejos, ver o sol bailar em cada folha uma dança única de luz. Tantos verdes, tantos tons, planos e planos de ramadas que quase tocam o céu.

Ficar cá em baixo, encostar ao tronco.
Ficar.
Permanecer.
Olhar para cima, as mãos percorrendo rugosidades e texturas, os olhos perscrutando a copa, mergulhando em verdes, voando cada vez mais para cima, lá onde as ramadas voam no céu azul.

Plátanos. Carvalhas. Pinheiros mansos.
Frescuras.
Proximidades.
Terra.

Gosto das árvores.
Foto: Henrique Santos

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Às vezes...















Às vezes somos (como) deuses.

Porque o sol brilha. E é para nós. Especialmente.

Porque a rocha está
e nos ampara as costas. Divinamente.

Porque a areia aconchega o nosso sentar
e cada grão tem a cor que deve ter,
e cada um diz o que quer mesmo dizer.

E a praia dá-nos licença, infinita licença de olhar.

Imensidão.

Mar.

Luz.

Vento.

Silêncio.

Palavra.

Solidão.

Companhia.

Porque vim hoje à praia contigo.
Por isso estive mais comigo.

Ah! E elas, as cadelas,
preencheram os interstícios do indizível.

Foto: Henrique Santos