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quinta-feira, 15 de julho de 2010

Solidão














       






Está em mim
um tempo de silêncio
em peso de montanha.
Solidão instalada.

Paira esta atmosfera pesada,
tórrida de opressão
como a cor crua do sol
na planura, à hora do calor.
Invade tudo,
toda a altura,
a largura
e a espessura dos dias.
Tudo o que na paisagem se alcança.

E eu também
ferozmente tisnada,
crestada,
em completa secura.
Experiência dura.

A solidão agarra-me,
carraça sugadora da cor dos dias.
Vivo um tempo
em que as palavras
não se abrem,
condensadas,
cada uma feita espessa bola de dor,
e espanto,
e interrogação sem par.
Foto: Henrique Santos

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Texturas... ou ternuras?




















Se um dia eu
precisasse de dizer
que o encantamento se personifica,
se um dia eu
precisasse de sussurrar
que a ternura se enche de infinitudes de emoção,
se um dia eu
precisasse de explicar a amizade,
se um dia eu
precisasse de dizer que o afecto
é um ser com vida própria,
se um dia eu
precisasse de lapidar as faces infinitas do amor,
se um dia eu
precisasse de rasgar o tecido
de que sou feita
(sentir-lhe o toque num afago de mão
e levá-lo até à porta da retrosaria)
só para ver bem as cores que tem à luz do sol,
pedia-te:
- Vem hoje às compras comigo, por favor!
Foto: Henrique Santos

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Presenças




















Sempre gostei de árvores, de as olhar.

De longe, na paisagem, de perto, a cada uma a minha atenção.
São mágicas, são rochas vivas de uma energia permanente, que se manifesta num tempo para além do tempo: num tempo mais longo que o meu.

Árvores.
Gosto de ficar por perto.
Cheirar o ar que as circunda.
Ouvir mil rumorejos, ver o sol bailar em cada folha uma dança única de luz. Tantos verdes, tantos tons, planos e planos de ramadas que quase tocam o céu.

Ficar cá em baixo, encostar ao tronco.
Ficar.
Permanecer.
Olhar para cima, as mãos percorrendo rugosidades e texturas, os olhos perscrutando a copa, mergulhando em verdes, voando cada vez mais para cima, lá onde as ramadas voam no céu azul.

Plátanos. Carvalhas. Pinheiros mansos.
Frescuras.
Proximidades.
Terra.

Gosto das árvores.
Foto: Henrique Santos

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Às vezes...















Às vezes somos (como) deuses.

Porque o sol brilha. E é para nós. Especialmente.

Porque a rocha está
e nos ampara as costas. Divinamente.

Porque a areia aconchega o nosso sentar
e cada grão tem a cor que deve ter,
e cada um diz o que quer mesmo dizer.

E a praia dá-nos licença, infinita licença de olhar.

Imensidão.

Mar.

Luz.

Vento.

Silêncio.

Palavra.

Solidão.

Companhia.

Porque vim hoje à praia contigo.
Por isso estive mais comigo.

Ah! E elas, as cadelas,
preencheram os interstícios do indizível.

Foto: Henrique Santos

domingo, 27 de dezembro de 2009


E o que eles dizem com os pés dá impressão de serem coisas aladas, cheias de sabedoria.
Carlos Drummond de Andrade
Ver o mundo de pernas para o ar.

Era uma frase irreverente, sem dúvida, mas ultimamente lera e ouvira frases como esta com uma frequência que as tornava quase banalidade. No entanto continuou atenta às palavras: para ver de pernas para o ar era mesmo preciso deixar voar os pés – deteve-se nesta consideração, invadida por uma súbita vontade de se descalçar, uma imagem de dança, movimento leve, solto, uma inxplicável alegria a crescer-lhe pela planta dos pés explodiu em gargalhada na boca.

Então percebeu: a primeira coisa alada que acontecia no mundo ao contrário era a repentina e espontânea possibilidade de se rir, completamente cheia de riso e por isso plenamente cheia da sabedoria do humor.

O resto do dia correu-lhe bem.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Dançando com a diferença



Veja um pouco mais aqui! Se gostar, leia e aprofunde por aqui!

Fui.
Vi.
Senti.
Chorei e ri. Também sorri.
Da minha cadeira, na plateia, também dancei.

Muito forte.
Muito envolvente.
Muito questionador.

Quem somos nós no nosso corpo?
O corpo que nos tapa e nos desvenda...
O corpo que nos aprisiona e nos liberta, o corpo que nos faz ser quem somos, o corpo pelo qual podemos ultrapassar-nos à procura de SER mais e viver uma VIDA PLENA.
O corpo que nos faz aprender a "estar aqui", o corpo que nos ensina a "estar BEM aqui".

Ainda bem que este projecto tem sede na Madeira!
Porque Portugal não é só Lisboa...

Que pena que este projecto esteja na Madeira... Porque a minha filha, de 19 anos, portadora de trissomia 21, acabado o seu percurso escolar, está em casa. Em stand by... Como que numa antecâmara para coisa nenhuma... E será só ela?

E hoje eu vi, claramente visto, que este projecto não é para "fazer-de-conta" que não se é portador de deficiência, "fazer-de-conta" que se faz formação profissional, "fazer-de-conta" que se promove a inserção social...

Este projecto é para viver a condição da diferença com plenitude, com liberdade e com a dignidade de se ser, acima de tudo, PESSOA!

Parabéns a Henrique Amoedo e a toda a Companhia!

Pergunto-me: será que não há ninguém que tenha interesse em fazer acontecer (pelo menos) um projecto destes aqui pelo continente?

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

"Vieste...



 ... pôr-me o dia a sorrir!"

Ofereceram-me hoje esta frase. Levantei voo nas palavras, deixei-me abrir as asas e planar, e agora que aterrei, preciso de escrever...

Pela palavra podemos ter a experiência viva do que é trocar emoções, tocar sem fazer falta tocar, envolver o outro num abraço sem aperto de braços, contudo poderoso e libertador, o outro connosco e nós com ele, experimentamos o que é comunhão e, inevitavelmente, ganhámos, nesses segundos em que a frase se soltou, mais uma pedra mágica para juntar aos tesouros que ao longo da vida coleccionamos, sobre esta misteriosa condição que nos assiste, a de não poder ser sem trocar o que somos com o outro.

Ainda bem!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Era uma vez... e já foi!





Um encontro.

De olhares...
De risos...
De palavras...
De sons... e de gestos... e de expressões... e de brincares...

De "gente crescida" e de "gente miúda", com a Poesia de permeio.

Era uma vez... um encontro que foi.
Um dia.
Numa escola.
Na Enxara do Bispo.

Porque ler, brincar com as palavras e ficar juntos a dizê-las e a ouvi-las, a dizê-las e a repeti-las, a dizê-las, juntos pelo ritmo e pela cor que elas nos devolvem, não tem idade, é próprio de quem procura saber de si, de quem viaja pela vida com a vida às voltas "cá dentro", é próprio de ser pessoa.

Qualquer dia volto lá, ficou prometido! :)

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Vê se me vais dizendo de ti, preciso… tanto como contar-te de mim…


Estas palavras, dirigidas a alguém especial, são raízes de tanto, nesta aventura da comunicação!
São dádivas e apelos...
São pedidos e ofertas...
São trocas...

São esconder-se e revelar-se, no jogo mágico que jogamos desde sempre, pois dele dependemos para ir crescendo, desenvolvendo e maturando, nas nossas capacidades e potencialidades de seres multifacetados e eternamente incompletos...

São "saber de mim" e "saber de ti", "ir ao teu encontro" e "deixar que venhas ao meu" e fruir da comunicação que aprendemos a fazer e a aprimorar neste processo... E utilizar todas essas "ferramentas" como forma de ir encontrando o nosso cantinho no mundo, não para nos escondermos nele, sim para nos ancorarmos nele e daí voarmos ininterruptamente, à procura de novos encontros e maiores experiências de humanidade...

E as histórias, o lê-las, o contá-las e o vivê-las, envolvidos nelas com outros, são uma oportunidade de, cada vez que um conto acontece, nos re-fazermos por dentro e nos re-olharmos, também por fora e "no espelho" dos outros.

Que haja tempo para o tempo de uma história na vida de cada um de nós. Em cada dia. Porque esta é uma (pequena?) garantia de que continuaremos a ouvir-nos e a ouvir os outros...