Sábado, 2 de Julho de 2011

"Dizer-se" no feminino é assim...

Foto: Henrique Santos

Primeiro a tua mão sobre o meu seio.
Depois o pé – o meu – sobre o teu pé.
Logo o roçar ardente do joelho
E o ventre mais à frente na maré.

É a onda do ombro que se instala.
É a linha do dorso que se inscreve.
A mão agora impõe, já não embala
Mas o beijo é carícia, de tão leve.

O corpo roda: quer mais pele, mais quente.
A boca exige: quer mais sal, mais morno.
Já não há gesto que se não invente
Ímpeto que não ache um abandono.

Então já a maré subiu de vez.
É todo o mar que inunda a nossa cama.
Afogados de amor e de nudez
Somos a maré alta de quem ama.

Por fim o sono calmo, que não é
Senão ternura, intimidade, enleio:
O meu pé descansando no teu pé,
A tua mão dormindo no meu seio.
Rosa Lobato de Faria

Domingo, 1 de Maio de 2011

RECEITA DE MULHER

Foto: Henrique Santos

E porque na raiz da maternidade está a feminilidade, fiquem com Vinicius... MULHERES, deixem-se mimar...


As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, maIs que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhavel na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.
Vinicius de Moraes
Antologia poética, Dom Quixote
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MÃE

Foto: Henrique Santos

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
Carlos Drummond de Andrade

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Sexta-feira, 15 de Abril de 2011

Poema do Amigo Aprendiz



Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.

Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.

Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...


Fernando Pessoa

Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Soneto destruído



Talvez logo na berma de uma estrada
Um par se beije transtornadamente
E o destino os separe de repente
Entre as duas e as três da madrugada

Talvez a lua fria os desinvente
E só lhes traga sombras e mais nada
E por saída só lhes dê a entrada
Para o túnel da noite à sua frente

Talvez então as faces se desolem
Talvez depois em cinza e solidão
A aurora ponha um luto, talvez colem
As nuvens o seu dorso rente ao chão

Talvez por não ousar ninguém mereça
O que viveu. Talvez não amanheça.

Vasco Graça Moura

Sexta-feira, 1 de Abril de 2011

COMUNICAR...

Este filme faz-me pensar em tanta coisa!



Veja então aqui.
Enquanto observei estes manos em amena e entusiasmada cavaqueira, fiz comigo mesma o exercício de tentar pôr "as nossas palavras", dos falantes em bom português, nas palavras deles. Sim, porque eles estão a conversar, alguém duvida?

(Acho que um dos assuntos fulcrais e hilariantes desta conversa é a falta daquela meia...).

Vou então contar-vos uma das coisas em que pensei - sim, porque nisto das conversas, só funciona se pudermos dizer o que queremos e até onde queremos dizer... - e também só funciona se pudermos mesmo, ao dizer, ter o espaço e o tempo de dizer o que pensamos e o que isso nos emociona, e também só funciona se, entretanto, pararmos de falar para ouvir interessada e atentamente... Enfim, basta olhar para os manos aqui em cima. Já agora, se assim o entenderem, gostaria de vos ouvir, aproveitem o espaço dos comentários... :)

Pensei no que fazemos - ou não fazemos - com a educação das nossas crianças, quer no contexto familiar quer no formal, a escola - para que tão precocemente deixem de falar com o corpo, de falar com emoção, de ter capacidades de escuta, de ter prazer e não vergonhas ou inibições em dizer (e se dizer), comunicar, partilhar...

E depois... O que é que isto terá a ver com as vontades, predisposições, capacidades e competências de leitura e de escrita?...

Mas acho que já estou a pensar demais...

Terça-feira, 22 de Março de 2011

PRIMAVERA

Matisse, Dança
É o tempo a florir
É a flor a sorrir
É o riso a colorir
É a cor a pincelar
É o pincel na pintura a voar
É o voo do pássaro - e o meu!
em pleno ar, em completo amar!

Segunda-feira, 21 de Março de 2011

PAI

Com a ajuda de umas "palavrinhas mágicas" de uma das salas de jardim-de-infância (Sala Encarnada) da escola onde trabalho como animadora da biblioteca escolar, surgiu esta homenagem ao PAI que existe em cada homem que se queira deixar homenagear... :)

As palavras que os meninos encontraram para dizer PAI:
Wordle: dia do pai

O escrito que aconteceu:

PAI
(A partir das palavras da Sala Encarnada)

Ó pai, querido amigo,
(trabalhador incansável para que eu tenha tudo)
adoro quando me deixas ser
teu ajudante: quando dizes
que és tu o cozinheiro do jantar
e me deixas experimentar…
É doce
o sabor de estar perto de ti
e de te ter aqui, feliz, a brincar comigo!

Às vezes imagino-te pássaro, talvez pomba,
e lá do alto do telhado do nosso prédio,
onde subimos os dois numa corrida,
lanças-te no ar e eu rio
num voo louco às tuas cavalitas,
e faço piu-piu aos quatro ventos!

Gosto de te ver bailarino,
pegar na mãe e fazê-la dançar,
pareces uma estrela a brilhar, a brilhar
no meio da música a tocar… e a mãe ri,
de olhos fechados, embalada por ti…

Às vezes
transformas-te num “monstro martelador”,
e fazes um barulho irritante
a pôr pregos nas paredes
– principalmente porque a mim não me deixas martelar…

Gosto
quando me chamas para o sofá
e me pões no teu colo fofinho, confortável
e falas comigo ou me contas uma história…

Às vezes também fico à espera que me ergas no ar,
quando te dá aquela vontade de me pegar
como se eu fosse uma pena,
gosto de sentir a tua força boa
e de ficar de pernas para o ar.

E de repente
dás-me aquele beijo amoroso à hora de deitar,
que me ajuda a adormecer pela tua mão
e a saber que vou sonhar,
e ser mergulhador de sonhos fantásticos!...

Amo-te, pai.

Sábado, 12 de Março de 2011

VOOS DE FADA...

Fada do Natal dormindo - madeira viva

Há uma fada adormecida em mim, numa presença suave, quase imperceptível...

Em dias em que no ar se adivinham sons de campainhas
Em manhãs em que se acorda numa vontade inexplicável de soltar a voz como um pio de gaivota
Em tardes em que se chora de comoção porque aquele pôr-do-sol dói numa dor consoladora e redentora por dentro das fibras que nos fazem ser assim
Em noites em que o veludo misterioso nos envolve e nos fala na pele palavras inebriantes

Ela, a minha fada adormecida, acorda!...

Quarta-feira, 9 de Março de 2011

Olhando o céu - madeira viva

O céu é meu
O céu é teu
O céu é dele mesmo.

Lá está ele por cima de todos
Por cima de mim
Por cima de ti.

Será que há céu
por cima do céu?

ESTRELA DA TARDE

Hoje apetecia-me ter alguém que, de repente, sem eu esperar, me levantasse do sofá - mesmo que eu estivesse de pantufas e roupão... - e dançasse comigo estas incríveis palavras de Ary, cantadas por quem canta Ary como mais ninguém...



Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos
Fernando Tordo

Terça-feira, 8 de Março de 2011

TANGO



Sem palavras!
A magia, a elegância, o envolvimento do TANGO.
E, neste caso, um sentido de humor inspirado e completamente sedutor... como é sempre sedutora e empolgante a experiência de dançar ou de ver dançar tango... (que saudades!).

Segunda-feira, 7 de Março de 2011

CONFORTO

Foto: Henrique Santos


Chegavas…
A tua mão a acenar no ar
dizia-me “conforto”!
– Chegou o meu porto – pensei,
num suspiro abrigado. – Porto de abrigo, é onde fico, contigo.
Preparei-me. Antegozei a conversa amiga, cheia, liberta.
Estou pronta, ou melhor, sedenta:
Sento-me
à sombra da tua voz.
Olho
através do teu olhar.
Penso e digo e oiço
as coisas que vêm colocar-se para serem ditas…
É bom estar aqui.

Depois…
Em cada dia
invento como apagar a tua ausência: pinto no ar
um pulo de pássaro lançado em voo, lá do alto, asas abertas
e nesse voo risco o vazio com movimento.
Em cada dia a sós comigo
agradeço
a construção em mim da tua presença: adereço de amizade
sem preço…
de olhos abertos
recolho o olhar e sinto-te pousar
em quietude
num canto de mim.

Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Sou



Entre mim e a Primavera

um caminho de terras húmidas da última chuvada,
um apelo verde,
uma fugida de lebre vislumbrada em felpudos cinzas…

Sou
deslumbrada de sol
um canto
de pássaro sem nome
chilreia-me no espaço entre a alma e o corpo…

Sinto-me erguer,
sou capaz de derrotar a tristeza,
sou um sorriso sem fim que me sai dos poros,
que me seca o choro,
que me pega na mão.

Sou o chão.
Sou água.
Sou.

Quarta-feira, 2 de Março de 2011

TARDE

Turner: Pôr-do-sol sobre um lago


No dourado da tarde
vejo
o teu olhar que me oferece
o verde
imenso
dos campos
Na tua voz
percebo
o som da luz do sol
que me enche o horizonte de poeiras douradas
Instante em que consigo ser feliz
dizer por dentro de mim
Paz, como se mastigasse aquele pão gostoso que me ofereces
do outro lado da mesa
num gesto
completamente
transparente,
quente
do forno desse pão.