Mostrar mensagens com a etiqueta escrita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escrita. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 9 de julho de 2010

ASAS...

foto: http://escreveduras-da-raquel.blogspot.com/2010/01/amor-combate.html

"Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas."


E mesmo quando parece que não as sabemos abrir
que não descolamos do chão
que até sentimos os pés a afundar
num lodo nauseabundo
opressor
que nos engole para dentro da sua monstruosa papa amorfa...
As asas estão lá
fechemos os olhos
(mesmo que estejam enterrados no lodo fedorento)
e pelo lado de dentro do olhar
pela força do querer
pela capacidade de resistir
façamos abrir
façamos acontecer o ver-nos a abrir as asas
e, de repente,
ah! de repente estaremos a olhar o lodo de cima!
Em pleno voo!

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um pai em nascimento, José Eduardo Agualusa

Ao passar ontem os olhos pela montra de uma livraria, aquele livro chamou-me. Entrei e procurei-o, ansiosa de o ter na mão.

Agora, já de volta a casa e com a primeira leitura integral quase concluída, aconselho a que, sendo ou não sendo pais, o leiam.

Para muitos não será certamente uma primeira leitura, pois o livro é uma compilação revista e actualizada das crónicas que Agualusa escreveu, na sua maior parte, na Revista Pais e Filhos, há uns anos atrás, mas, quer seja uma re-leitura quer seja uma viagem inicial, será certamente um percurso enternecedor, que nos faz soltar umas boas gargalhadas, daquelas que nos saem quando aprendemos a rir de nós mesmos... Uma escrita que nos envolve em afectos, perguntas, perplexidades, deslumbramentos e oportunidades de ler sobre aquele "essencial que é invisível para os olhos"...

Comenta Laurinda Alves, que prefacia o livro: Agualusa escreve cartas aos filhos por nascer como quem inaugura um mundo novinho em folha (...); (...) sei que continua igualzinho ao que sempre foi. A única coisa que mudou (...) é que já não escreve crónicas sobre os primeiros tempos de vida dos seus filhos, mas continua a viver através deles, com a certeza de que "a infância é o que conhecemos mais próximo da eternidade".

Deixo-vos alguns dos excertos que me encantaram:

(...) não consigo compreender o que o meu filho diz, embora, pela convicção com que tagarela, seja possível supor que utiliza efectivamente uma qualquer linguagem primordial, aparentada com o idioma das aves, dos regatos e dos anjos.

O meu calendário está a chegar ao fim. Quando me sentar outra vez para escrever esta crónica, já serei pai.
Não tarda muito e acontece-me um neto.

Um filho leva-nos pela mão, como um pequeno cicerone, e dá-nos a ver o futuro: ali as maravilhas, acolá os monstros, e tanto os monstros quanto as maravilhas fazem parte do mesmo jogo - desafios a vencer com alegria.

Outra questão importante prende-se com a insistência da generalidade das mulheres nos excelentes benefícios de envolver os homens nas tarefas (...): dar o biberão, mudar as fraldas (...) porém insistem em controlar tudo. O jogo é delas e deixam-nos brincar um pouco, mas estão sempre de olho em nós. Deus, sugerem, explicou-lhes qual a temperatura correcta da hora do banho, a posição ideal para o bebé mamar (...). Assim sendo, podemos e devemos tratar dos bebés, mas cumprindo rigorosamente as instruções (...). Se nos atrevemos a protestar reduzem-nos a nada, invocando precisamente o mesmo argumento com que, durante séculos, as escravizámos: as mulheres é que dão à luz, produzem leite, foram preparadas pela natureza para cuidar dos filhos. Nós, os pais, somos, seremos sempre, mães amadoras.

Ver-te dormir - e como tu dormes, minha filha, com que talento! - repousa-me e regenera-me mais do que o meu próprio sono. Anseio por ouvir a tua primeira gargalhada. Sei que isso me fará ainda melhor. Não conheço som mais iluminado do que a gargalhada de um bebé.
Bem-vinda, pois, minha filha. Choveu há pouco. O céu está limpo.
O mundo pode agora começar.

Boa leitura!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Era uma vez...


Retrato da Rainha Nebto, filha de Ramessés II (19.ª dinastia)



Uma princesa...

Ou uma couve mágica...

Ou uma estrela que só dava brilho de dia...

Ou...

Uma das componentes que desde muito cedo funciona como um aliciante convite à imaginação, empurrando-nos para a (a)ventura de experimentar palavras que saiam de nós, é sem dúvida a imagem - seja o apelo da imagem interior, seja o apelo que nasce do encontro estético com a forma e a cor, na viagem que fazemos, pela mão dos pintores, ilustradores, artistas plásticos em geral, no mundo sem fim da linguagem plástica.

Para além do contacto com as ilustrações através do livro para a infância, que felizmente, de dia para dia, diversifica as propostas e traz às crianças a maravilhosa possibilidade de ver pelos olhos de outrém e de interpretar pelos seus próprios olhos, penso que vale sempre a pena ampliar o contacto das crianças com a imagem. Um contacto e uma experiência que pode aprofundar-se pela tentativa de "entrar" pela imagem dentro e com ela fazer texto, inventar histórias, contar um apontamento, partilhar um ponto de vista...

Enfim, a produção artística pela imagem é um manancial inesgotável a que podemos recorrer e explorar, procurando outras e sempre mais outras linguagens plásticas, viajando por culturas, viajando no tempo e atravessando civilizações, no intuito de pôr as crianças o mais precocemente possível em comunicação de leitura com a imagem. E, por consequência, em comunicação consigo mesma e com os outros, enriquecendo e comunicando o seu imaginário.

A Internet também nos pode dar uma boa ajuda neste campo. Sites como este são uma maravilha...